Maomé – A face oculta que a superinteressante não mostrou

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A revista superinteressante edição de fevereiro de 2015 [1] teve como reportagem de capa a pessoa do profeta Maomé: “Maomé, a face oculta do criador do Islã”. Na capa não vemos o rosto de Maomé, mas apenas um turbante e logo abaixo lê-se: “Ele fundou uma nação baseada em direitos trabalhistas e livre mercado. Tinha uma esposa que ganhava mais que ele e emancipou as mulheres. Conheça o verdadeiro homem por trás do Islamismo.”

     Em primeiro lugar cumprimento a revista por escrever sobre um tema tão relevante para o momento. Como alguém que tem estudado o islamismo há alguns anos, fiz uma leitura mais criteriosa que um leitor comum. No artigo de dez páginas (das páginas 22 a 32)  a revista apresenta Maomé com muitas virtudes, uma pessoa que procurava a paz e que se mostrou um líder e estadista de sucesso.

     Na página 23, o autor destaca que, com a religião criada por Maomé (os muçulmanos discordam pois creem que Adão já era muçulmano), o mundo seria bem diferente, e bem melhor. Maomé é visto como uma pessoa que não apoia a violência e com isso, diz o autor, os atos dos terroristas islâmicos estão, na verdade, ofendendo a religião e seu profeta maior.

     Na página 30, Maomé é visto como um reformulador das questões econômicas da época e que criou uma espécie de BNDES, ou seja, um sistema de empréstimos a “juro zero”  somente para os que acreditassem nele. Diz também que ele quebra o monopólio de uma tribo judaica , “Banu Qaynuca”, que era acusada de controlar o mercado em Medina se favorecendo de lucros na venda de muitos produtos.

     O autor enaltece o profeta por criar uma quase “bolsa família” na qual toda comunidade tinha que pagar uma taxa de acordo com suas posses e o dinheiro arrecadado era dirigido para os seguidores mais pobres.  Maomé é colocado também na posição de reformista jurídico pois aboliu a lei “olho por olho” e instituiu uma lei mais amena no caso de injurias. Foi também um incentivador para o direito das mulheres.

     Na página 31, o autor declara: “Se Maomé ressuscitasse hoje, deveria ser chamado para dar palestras de gestão pública. Seu pacote deu tão certo que vários habitantes de Medina entraram na Ummah (comunidade muçulmana). Era fácil, bastava acreditar num único Deus e crer que Maomé era o mensageiro de Deus”.

     Ainda na mesma página, há uma tentativa de justificar as violências realizadas por muçulmanos radicais. Com isso o artigo menciona um texto do Corão: “Matem os idolatras (infiéis ou politeístas)  onde quer que eles estejam” (Corão capítulo 5 e verso 9). Segundo o autor, o contexto é o da guerra contra os Quraish (principal tribo de Meca, Maomé e sua família eram desta tribo), que infiltravam espiões em Medina. Utilizando desta explicação, o artigo menciona que “isso não significa que o Islã tenha mais apreço pela violência que outras religiões”.

     O autor ainda afirma: “Algumas partes do Antigo Testamento parecem ter sido escritas por Quentin Tarantino, dada a torrente de sangue.” Além da citação do Antigo Testamento, há a menção de um texto do Novo Testamento.  O autor diz:  “O próprio Cristo disse : “Não pensem que vim trazer paz ao mundo. Não vim trazer paz, mas a espada ( Mateus 10:34). E isso não significa que o cristianismo prega a violência. No caso do islamismo, vale o mesmo raciocínio”.

     No final do artigo, na página 34, o autor diz que o islamismo é uma religião humanitária, e que Maomé era alguém aberto ao diálogo e teme que “meia dúzia de psicopatas” acabem com esse legado tão rico que Maomé deixou para a humanidade.

     O propósito aqui não é apoiar a islamofobia, que sou contra, e nem ofender a pessoa do profeta Maomé e seus seguidores. Tenho muitos amigos muçulmanos e respeito o direito de crer num Deus que ama somente as pessoas que não cometem pecado, um Deus que permanece sempre escondido e revela apenas sua vontade mas não a si mesmo, um Deus que é somente transcendente e nunca imanente.

     À luz dos próprios textos islâmicos, gostaria de trazer algumas considerações para uma reflexão dos leitores. Para a real compreensão do islamismo, é necessário o estudo exaustivo do que chamo de trilogia, composta pelo Corão (Al Qur’an), Hadice (hadith) e biografia do profeta Maomé (Sirat Rasul Allah).

     O Corão é o livro que os muçulmanos consideram ser a Palavra de Deus, escrito pelo próprio Deus e enviado pelo anjo Gabriel a Maomé. O  Hadice (hadith) é a coletânea de informações das coisas que Maomé disse e realizou. Já a biografia do profeta Maomé (Sirat Rasul Allah)  inclui uma variedade de materiais heterogêneos contendo, principalmente, os relatos das expedições militares lideradas por Maomé. Na prática, estes contos históricos são usados para venerar o profeta. Também inclui tratados políticos, alistamentos militares, cartas à governantes estrangeiros , etc.

     Na verdade, a religião islâmica é quase toda fundamentada na pessoa de seu profeta. Tudo depende de Maomé. O islamismo não existe sem a pessoa de Maomé. Foi ele que recebeu as revelações, tudo o que ele fez no passado é considerado como modelo exemplar para o mundo atual, ou seja, para muitos muçulmanos  queimar o Corão traz menos sentimentos de fúria que ofender o profeta Maomé por  palavras ou por imagens.

     Se algo de errado for encontrado na vida de Maomé, todo a história do islamismo se torna duvidosa. Por isso que existe no islamismo uma tentativa de “super proteção” de seu profeta. A retaliação de alguns muçulmanos contra as caricaturas do profeta na Dinamarca e mais recentemente na França pelo jornal Charlie Hebdo é um exemplo do contra ataque violento e radical.

     Para trazer uma reflexão do conteúdo da revista, é necessário uma breve introdução da vida do profeta.

     Maomé nasce em Meca e é nesta cidade que ele, já casado com uma viúva rica, começa a receber as revelações. Em um abiente politeísta, ele traz uma mensagem monoteísta, e usa a força da poesia e da fala para propagar a nova  onda religiosa Sendo assim, Maomé e seus adeptos afetam a economia da região já que muitas estátuas de deuses eram vendidos na cidade.

     Naquela época, Meca também era uma importante rota comercial. Maomé, em seus discursos, apresentava uma forma não violenta para convencer os habitantes de Meca a se converterem ao islamismo.

     Sem a preocupação de trazer muitas datas ao artigo, no ano de 622 D.C, devido a pressão da comunidade de Meca, Maomé muda para uma cidade não tão distante chamada Medina. Esta data, conhecida como Hégira,  é considerada o ano zero do calendário lunar muçulmano. Para muitos estudiosos a história do islamismo começa mesmo a partir da Hégira.

     Em Medina as coisas começam a mudar.  O poeta passa a ser legislador e líder político. Suas investidas poéticas perdem lugar para a força bélica. Em Medina havia uma quantidade expressiva de judeus com posses.  Neste período Maomé resolve alguns problemas étnicos e começa a ganhar força como líder político.  Ele continuava a receber as revelações, porém o conteúdo se torna mais violento contra os infiéis.

     No início de sua nova vida em Medina, Maomé  começa a ganhar adeptos e inicia sua estratégia para retomar Meca para depois conquistar o mundo.  Sem sair deste propósito, Maomé desenvolve leis apoiando os direitos das mulheres, cria um mecanismo para ajudar os pobres, chamado de zakat,  e a cada dia as pessoas se apegavam mais as ideias de Maomé, passando a seguir a religião por ele compartilhada.

     A medida que o tempo passava, Maomé direcionava alguns benefícios criados em Medina somente para os fiéis, ou seja, para  seus seguidores. Já para os infiéis, caiam sobre eles maiores impostos e atos violentos.

     No Corão há uma palavra árabe chamada “kafir”, que numa tradução direta seria toda pessoa infiel ou descrente. Neste artigo usaremos kafir como uma palavra em português. Assim, o plural de kafir fica sendo  kafirs. No Corão, um kafir não é somente aquele que não concorda com o islamismo,  mas alguém com inclinações malignas. Para os muçulmanos, kafir é considerado a mais baixa forma de vida. O kafir pode ser odiado, torturado, morto e decapitado.  Há muitos nomes para kafir no Corão: politeístas, idólatras, povo do Livro (cristãos e judeus), budistas, ateístas, agnósticos e pagãos.

     No credo muçulmano, considerado o menor do mundo, há duas sentenças. Uma atribuída a Alá (Deus)  e a outra atribuída a Maomé: “Não há deus e sim Deus (Alá) e Maomé é Seu mensageiro”.  Deixar de crer numa dessas sentenças já faz de alguém um kafir.

     O islamismo gasta uma grande quantidade de energia para descrever as punições para um kafir. A maioria do Corão, cerca de 65%, é devotado ao kafir. Quase toda a Biografia de Maomé, cerca de 81%, lida com os entraves de Maomé com os kafirs. O Hadice devota cerca de 32% de seu texto falando do kafir. Numa média, na trilogia, 60% do conteúdo trata das punições contra o  kafir e sobre a posição dos muçulmanos diante deles.

     Um kafir pode ser:

-decapitado ( 47:4 – capítulo 47 e verso 4)

– zombado ( 83:34)

– conspirado contra ( 86:16)

– aterrorizado (8:12)

     Um muçulmano não é motivado a ser amigo de um kafir (3:28). Um kafir é um ser amaldiçoado ( 33:61). Basta não crer que Maomé é o último profeta do islamismo que você é um kafir.

     Portanto, somente com o estudo da palavra Árabe “kafir” no Corão é possível observar, ao contrário da intensão do artigo da revista superinteressante,  que Maomé  não era uma pessoa pacífica.

     Um outro exemplo está na biografia do profeta Maomé.  A tentativa de Maomé em ganhar os judeus de Medina para o islamismo fracassou e somente numa batalha, Maomé e seus seguidores entraram numa vila judaica chamada “Banu Quraizah” e decapitaram cerca de 800 homens. Decapitar pessoas em batalhas está na história oficial do islamismo.

     A partir da leitura da trilogia, se Maomé vivesse em nossos tempos eu acredito que o mundo não seria melhor, ao contrário do que o artigo escreve. Acredito que benefícios gerados pelo profeta serviram apenas como isca para aumentar o número de fiéis e, automaticamente, o número de guerreiros. Muitos dos moradores de Medina, para obter privilégios, decidiram seguir as ideologias maometanas.

     Ao contrário da trilogia islâmica, a  Bíblia Sagrada não é um livro violento e nem incentiva a violência de seus seguidores. No Antigo Testamento, por exemplo,  Deus destrói o povo Cananeu e tal  acontecimento foi para aquele tempo e para um propósito específico onde as atrocidades daquele povo tinham chegado até Deus.

     Não foi deixado nenhum comando para os cristãos de hoje destruírem povos que não aceitassem seguir a Deus. Não há nenhum grupo cristão terrorista que usa de textos bíblicos para decapitar ou queimar pessoas. Muitos ateus e muçulmanos tentam usar textos do Antigo Testamento para colocar o Deus da Bíblia no ranking dos seres mais assassinos da humanidade. O maior problema é o desconhecimento de como interpretar um texto com leituras anteriores e posteriores ao texto analisado. Há um enorme desconhecimento de exegese bíblica.

     Ao contrário, a Bíblia mostra um Deus de amor, um Deus que, movido por seu amor, vai em busca do homem. Foi o que ele fez com Adão e Eva.  Foi o que ele fez ao evitar que Isaque fosse sacrificado por seu pai Abraão enviando um cordeiro. Os profetas do Antigo Testamento profetizaram sobre alguém que viria para ser Senhor e Salvador, O Messias, Jesus Cristo.  O profeta Isaias diz que Ele seria o “príncipe da paz”.

     O Reino de Deus foi um dos pontos mais importantes nas mensagens de Jesus. Um Reino de Paz, Alegria e Justiça e somente quem decide segui-lo é que sabe realmente o significado desta paz. Aqueles que tem experimentado pertencer ao Reino de Deus tem a paz e irradia paz aos que estão ao redor.

     Em Mateus 10:34, Jesus não quis dizer que a missão dele era a espada pois sabemos da sua mansidão. Analisando todo o contexto podemos observar que fala sobre o comissionamento dos doze discípulos. Jesus diz: envio vocês como ovelha no meio de lobos e vocês serão odiados, perseguidos, presos, mortos. É por isso que Jesus diz que veio ao mundo trazer espada e não paz. Espada aqui não é literal e nem significa guerra ou violência por parte de Jesus, mas significa as consequências do envio dos discípulos e de todos os que o seguem no meio daqueles que ainda não O reconhecem como Senhor e Salvador. É preciso ler todo o contexto. A espada, na verdade, é contra os discípulos.

     O islamismo, por intermédio da trilogia, deixou um legado escrito com inúmeras citações de violência. Somente o Corão contém cerca de 160 versos que falam de violência. Infelizmente, grupos formados por terroristas islâmicos tem seguido interpretações teológicas como os movimentos salafis e wahabbis que interpretam tais textos abrindo caminho para que milhares de radicais islâmicos cortem cabeças dos kafirs, queimem-os e explodam seus cérebros com armamentos pesados.

     Os muçulmanos moderados tentam explicar aos muçulmanos e não-muçulmanos que muitos textos não são para os dias de hoje, ainda assim estas passagens estão presentes no Corão, no Hadice e na biografia do profeta Maomé.

     Para mim, a proposta para este mundo não é o retorno de Maomé ou de seus ideais e ações mas a proclamação da mensagem de Jesus Cristo. Uma mensagem transformadora de amor, paz e gozo. Pois Ele veio para trazer vida e vida em abundância.

[1]VERSIGNASSI Alexandre. Maomé a Face Oculta do Criador do Islã. Revista Superinteressante, São Paulo, Edição 343, p. 22-32, fev. 2015.

Artigo extraido de http://www.hikmah.com.br/#!artigos/cw4s

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