O Islamismo: Origem e Desenvolvimento – Parte II


A expansão

No século VII, as invasões árabes provocaram uma mudança radical na geografia da Igreja mediterrânea. Ante os impérios romano e persa esgotados, os árabes constituíam uma nova força militar. A passividade das populações orientais da Síria e do Egito, em conflito permanente com Constantinopla, facilitou a ação dos conquistadores, considerados às vezes como libertadores.

O primeiro califa foi Abu Bequer (+634), que promoveu os primeiros conflitos com os exércitos bizantinos que foram derrotados em 634. Sucedido por Omar (634-644), que em 635 conquista Damasco, 638 conquista Jerusalém e em seguida toda a região.

Jerusalém foi tomada em 638, ao mesmo tempo em que a Síria e a Palestina. Alexandria caiu em 642, e a Pérsia em 651. Cartago caiu em 698. Em 711, os árabes iniciaram a conquista da Espanha.

Permitiam certa liberdade a judeus e cristãos, desde que pagassem um tributo religioso e não realizassem proselitismo, pois eram monoteístas. O politeísmo, a idolatria e a conversão de muçulmanos a outras religiões eram proibidos.

Em 639 invadem o Egito, em 640 fundam a atual cidade do Cairo e em 642 todo Egito está em poder dos muçulmanos.

Em 651 o último rei persa é morto e em 652 todo o antigo Império Persa é conquistado.
No tempo do califa Otoman (644-656), teve início a redação do Corão, e também um arrefecimento nas conquistas principalmente por causa dos conflitos internos.

Mesmo com conflitos internos, em 711 derrotam o último rei Godo, mas são derrotados pelos francos sob o comando de Carlos Martel em 732, na batalha de Tours ou Poitiers.

Repercussão das invasões

No oriente o Império Romano do oriente perdeu a Síria, a Palestina e o Egito. Era ameaçado ao norte e a leste pelos eslavos e búlgaros. As conquistas árabes também se apropriaram dos mais antigos centros de difusão e pensamento cristão, fazendo assim que restassem somente dois grandes pólos para disputar a hegemonia no mundo cristão: Roma e Constantinopla. No norte da África as comunidades cristãs foram progressivamente aniquiladas. Teve ainda que enfrentar o problema do uso ou não de imagens na igreja. Esta controvérsia conhecida como controvérsia iconoclasta, surgiu em parte porque os muçulmanos acusavam os cristãos de idólatras por terem esculturas e imagens na igreja.

No ocidente cem anos após a morte de Maomé, os muçulmanos tinham conquistado toda costa do Mediterrâneo, limitando assim o comércio cristão uma vez que a Europa Ocidental ficou relativamente isolada do antigo oriente, fazendo com que passasse a depender dos seus próprios recursos e a desenvolver sua própria civilização.A administração eclesiástica sobreviveu ao desmoronamento das instituições e a Igreja permaneceu como a única instituição organizada. O papa não titubeava em se aproveitar de todas as oportunidades para fortalecer a sua posição.

Os monges se tornaram os mantenedores da vitalidade cristã, assumindo freqüentemente um lugar de destaque na continuidade da evangelização.

A igreja não conseguiu desenraizar o paganismo, apesar da luta, muitas vezes violenta, contra ele. Em geral os bispos preferiram a assimilação à mão-de-ferro. A religião cristã mesclou-se com o paganismo supersticioso — combinação do cristianismo com resíduos de outras religiões, resultando num tecido de práxis pagã, sincretista e supersticiosa, e na vivência superficial e passiva do religioso — cristão, reduzido a ritos externos. Com o enraizamento rural, o culto dos santos e das relíquias.

Com o desenrolar da história, os islâmicos resistiram bravamente aos esforços do papado e dos cruzados para reconquistar a Terra Santa e, desde então, tem resistido duramente a qualquer tentativa de missionários cristãos propagarem o cristianismo entre os muçulmanos.

Cultura e Teologia

O Glorificado respondeu às suas insinuações com uma conclamação ao arrependimento e comparou esse terrível acontecimento à queda de uma torre em Siloé.
Ibn al-Salibi. Comentário sobre Lucas 13.1-5.

O Oriente Médio é uma das regiões que viram a civilização nascer. Povos diferentes ocuparam seus desertos e vales férteis. Levas de invasores e povos dominados se alternaram ao longo da história a tal ponto que se tornou difícil separar laços culturais construídos nos últimos milênios.

A partir do sétimo século de nossa era, os árabes ocuparam os espaços da cultura cristã helênica nas regiões da Síria, Palestina, Mesopotâmia, Pérsia, Egito e norte da África. Absorveram essas culturas e o helenismo e desenvolveram áreas da ciência e da filosofia. Assim, foram grandes as contribuições dos árabes nos campos da matemática, química, medicina, agronomia e filosofia para a cultura ocidental.

Traduziram do grego para o siríaco e para o árabe as obras de Platão e Aristóteles.

Em 711, sob a liderança de Tárik, invadiram a península ibérica, derrotando os visigodos. Criaram o Emirado de Córdoba em 756, que posteriormente passou a Califado, tornando-se independente de Bagdá, dando origem ao reino árabe da Espanha, El Andaluz.

É importante notar que Bagdá, na Mesopotâmia, capital do império árabe era, no século IX, a cidade mais desenvolvida da época, sem rival no mundo ocidental. E Córdoba, por sua vez, era a cidade mais importante da Europa.

Na Espanha, os árabes desenvolveram uma cultura helenística de leitura árabe, que criou as bases teóricas e metodológicas para o desenvolvimento da escolástica no século XIII. Para vislumbrar essa riqueza civilizatória, vale a pena citar três expoentes do pensamento medieval, que exemplificam esse florescimento do pensamento árabe: Hunayn ibn Ishaq, árabe cristão, que viveu em Bagdá e que no século IX traduziu e comentou as obras de Aristóteles. Averróes (1126-1198), que viveu em Córdoba e se tornou o maior comentador de Aristóteles no Ocidente. Aliás, foi através dele que Aristóteles ficou conhecido no mundo cristão latino. O terceiro é Moisés Maimônides (1135-1204), nascido em Córdoba, o maior pensador judeu da Idade Média. Maimônides, contemporâneo e conterrâneo de Averróes, profundo conhecedor de Aristóteles e da cultura muçulmana, escreveu inclusive sua principal obra, Guia dos Perplexos, em árabe.

Dentro desse contexto, era de se esperar que os árabes cristãos desenvolvessem uma exegese e uma teologia bíblica, principalmente do Novo Testamento, peculiar e profunda. Ibn al-Salibi, Ibn al-Tayyib e Ibn al-Assãl foram eruditos cristãos de primeira grandeza. Ibn al-Salibi, por exemplo, em 1050, escreveu uma belíssima obra de exegese, o Livro das Pérolas Inusitadas de Interpretação do Novo Testamento. E Ibn al-Tayyib escreveu um extenso comentário dos quatro evangelhos, publicado no Cairo, em 1908.
As duas guerras

Guerra santa deriva do termo árabe jihad, que significa esforço. Um esforço voltado para a causa religiosa. Uma das modalidades desse esforço pode ser a guerra. Como aparece no Alcorão, o termo autoriza duas leituras, uma interior e espiritual, e outra exterior e militar.

A guerra tem como objetivo a conquista da paz para que o mundo não seja tomado pelo caos. Existem limites bem estabelecidos para a guerra. Por exemplo: ela não pode envolver civis, não pode envolver crianças, mulheres e velhos. Essa seria a jihad mais conhecida no mundo ocidental.

Há ainda o esforço no sentido espiritual. Essa é a batalha espiritual do sufismo, a dimensão mística do Islã. Para o Islã tradicional, a guerra exterior é secundária, exatamente o contrário do que pensa o Islã fundamentalista. A guerra interior é mais importante, é a verdadeira guerra.

O muçulmano só pode matar em legítima defesa. O muçulmano não pode partir para o ataque fora dessas premissas. Por isso, do ponto de vista místico, as guerras são lutas interiores.

Há uma história de Maomé que mostra um pouco da perspectiva islâmica em relação à guerra. Maomé voltou de uma batalha e chegou à Meca. Aclamado pelo povo por sua vitória, alguém lhe disse: “Você voltou vencedor da jihad”. E Maomé respondeu: “Voltei da pequena jihad contra os inimigos do Islã. Mas o essencial é jihad al-akbar, aquela que todo homem deve travar dentro da sua própria alma, a batalha contra as paixões”.

Essa compreensão tem como ponto de partida o entendimento islâmico sobre o problema do mal, que é visto não como ser ou realidade objetiva, mas como questão metafísica. O mal para o islamismo é a sombra do bem. Não possui existência autônoma, própria. A imagem utilizada para ilustrar o mal é: a luz quando incide sobre uma pessoa ou objeto sempre produz sombra.

Os povos têm características próprias e às vezes são muito diferentes uns de outros. Os povos do Mediterrâneo, por exemplo, como os italianos e espanhóis são calorosos e abertos. De maneira idêntica, o árabe é um povo apaixonado e extrovertido. Aparentemente predisposto a entrega total de si. Com o advento do Islã isso se potencializou.

TABELA DOS PRINCIPAIS ACONTECIMENTOS DO ISLAMISMO

ANO (A.D.) ACONTECIMENTO
570 Nascimento de Maomé em Meca
610 Maomé começa sua carreira religiosa
622 – Maomé vai para Medina
630 Conquista de Meca
632 – – Morte de Maomé
– – 634 Derrota dos exércitos bizantinos
635 Conquista de Damasco
637 Conquista de Antioquia
638 Conquista de Jerusalém
639 Invasão do Egito
– – – 640 Árabes fundam o Cairo
640 Conquista de Cesaréia e Gaza
642 Conquista de Alexandria / Todo o Egito em poder dos árabes
647 Conquista de Ctesifom (capital Persa)
647 Conquista de Trípoli
651 Último rei Persa morto
652 Todo o antigo Império Persa em poder dos árabes
695 Conquista de Cartago
711 Cruzam o estreito de Gibraltar-Derrota do último rei godo(Rodrigo)
718 Derrotados em Constantinopla
720 Derrotados na Sicília
721 Marcham sobre Toulouse
732 Derrotados por Carlos Martel perto de Poitiers

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