Igrejas concorrem politicamente para ampliar sua influência

Um estudo realizado pelo geógrafo Alberto Pereira dos Santos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP analisou as relações entre a geopolítica das igrejas, principalmente a Católica e as evangélicas, e o crescimento da população sem religião definida no Brasil, fenômeno chamado pelo autor de anarquia religiosa.

Disputa entre igrejas inclui influências na política e nos meios de comunicação“Existe sim uma geopolítica das igrejas que pensa na expansão de novas filiais, na eleição de parlamentares (vereadores, deputados, senadores), na disputa por concessões de canais de televisão e rádios, entre outras estratégias e metas. Por outro lado, existe também uma geopolítica da Igreja Católica para dentro e para fora desta instituição religiosa milenar”, afirma o geógrafo, autor da tese de doutorado Geopolítica das igrejas e anarquia religiosa no Brasil. Por uma geoética de apoio mútuo, defendida em junho de 2011 sob orientação do professor Jose William Vesentini.

O principal foco da disputa geopolítica estudado foram as igrejas evangélicas e a Igreja Católica. “O embate geopolítico entre as igrejas católica e evangélicas se dá por intermédio dos meios de comunicação, televisão e rádio principalmente; da produção musical, de um lado, os padres cantores, de outro, os cantores gospel evangélicos; da criação de novos templos faraônicos em lugares estratégicos nas cidades.”

Santos explica, porém, que a concorrência entre as igrejas é política e econômica. Para sua manutenção, as igrejas precisam ampliar seu número de fiéis. “Isso pode ocorrer por meio do engajamento eleitoral das igrejas em prol de determinados candidatos (padres, pastores e bispos), na intensificação da ideologia religiosa por meio da ênfase nos dogmas, na realização de grandes shows e eventos religiosos, por exemplo, as feiras Expocatólica, Expoevangélica e marketing do turismo religioso, entre outras atividades. Além do investimento de capital em atividades econômicas como gráficas, editoras, escolas e faculdades religiosas, bancos, instalação de equipamentos transmissores de som e imagem, e a disputa por concessões de canais de televisão e rádio”, afirma.

Anarquia
Apesar de todo o investimento feito pelas igrejas nos meios de comunicação ou em outras formas de tentar influenciar e captar mais fiéis, a anarquia religiosa cresce no Brasil. Atualmente, são mais de 12 milhões de pessoas sem religião. Destes, mais de 90% já foram católicos ou evangélicos em algum momento da vida. “Isto é, são pessoas que têm fé, mas não acreditam nas igrejas”, define Santos.

O termo anarquia religiosa quer dizer, etimologicamente, ausência de governo religioso. “As populações religiosas não obedecem eterna e cegamente as normas ditadas pelas autoridades de suas igrejas. Por isso as pessoas religiosas mudam de igrejas e, gradativamente, se declaram sem religião, ou seja, vão se emancipando espiritualmente”, explica o pesquisador.

Santos tentou entender quais os fatores que influenciam no crescimento de pessoas sem religião definida. “O descrédito sobre as igrejas tem várias razões: contradição entre a moral que se prega e a prática de corrupção por pastores e bispos, pedofilia e abuso espiritual de líderes religiosos sobre os fiéis, atraso doutrinário em relação à ciência e a descoberta filosófica de que fora das igrejas existe fé e religiosidade.”

Além disso, a própria disputa geopolítica acaba ajudando a aumentar esse número de pessoas. “Nas entrevistas pude constatar que as pessoas que se declararam sem religião apontaram a disputa política e o mercado religioso das igrejas (inclusive com corrupção, etc) como um dos fatores que corrobora para o descrédito e desligamento das igrejas ou emancipação dos fiéis”, revela o geógrafo.

Para ele, esse cenário contribui para o enfraquecimento do poder político das igrejas e para o fortalecimento da cidadania. “A pesquisa revela que o crescimento do embrião de anarquia religiosa sinaliza para a construção de outra ordem, a qual seja a autonomia da fé, a emancipação espiritual das populações religiosas no Brasil”, conclui.

O estudo levou em consideração observações empíricas, dados estatísticos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e entrevistas semi-estruturadas com pessoas sem religião definida e com pessoas com religião, mais ou menos praticantes.

Fonte:
http://www.usp.br/agen/?p=92480

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