O Cisma e Declínio do Poder Papal

A DECADÊNCIACativeiro babilônico
Desde meados do século XIII, a grande questão do papado era como manter o poder alcançado. O primeiro esforço concentrou-se na Itália, que os papas procuraram libertar da influência dos reis e imperadores alemães. Para tanto buscaram auxílio junto aos reis franceses, dos quais acabaram prisioneiros. Após Inocêncio III e Inocêncio IV, faltaram figuras de grandeza teológica e política na liderança eclesiástica em Roma.

Em 1294, após um conclave de mais de três anos, os cardeais elegeram o beneditino e asceta Pedro Morrone, na época com 80 anos. Conhecido por sua piedade sincera e por sua espiritualidade, Pedro não correspondia às pretensões de poder. O que pode ter levado a sua eleição foi o clima apocalíptico presente no mundo cristão de então. Especialmente nos escritos de Joaquim de Fiore (fal. Em 1201) encontrava-se a profecia de que, no final dos tempos, se ergueria novo imperador e um papa que lhe corresponderia. Este libertaria a cristandade de suas dores, e então irromperia o Reino de Deus. Quando da eleição de Pedro de Morrone, não havia imperador, mas este aceitou a eleição, como disse, por amor ao povo cristão e suas necessidades, assumindo o nome de Celestino V.

Não tomou Roma como sua sede, nem qualquer outra cidade do Estado Pontifício. Viajou em direção ao sul e se instalou no território da Casa de Anjou, em Áquila onde também ficou residindo. Vivendo como eremita, Celestino V caiu sob o controle do rei Carlos II, de Nápoles. Mostrou-se incapaz de corresponder às esperanças religiosas de produzir uma renovação espiritual na Igreja. A era do Espírito Santo, profetizada por Joaquim de Fiore, não foi inaugurada.

Antes que chegasse o final do ano de sua eleição, Celestino renunciou. Não se lhe permitiu, porém, a continuação de sua vida ascética contemplativa. Ao tentar fugir para a Grécia, para escapar da Casa de Anjou, foi aprisionado e entregue a seu sucessor na sé apostólica, que o manteve preso como refém. Nessa condição faleceu em 1295.

Bonifácio VIII (1294 – 1303)
Benedetto Gaetani, seu sucessor, que adotou o nome de Bonifácio VIII, era jurista e buscou fazer com que todos aceitassem a teocracia papal. Transformou o ano do jubileu de 1300 em festival propagandista. Promulgou indulgência plenária a quem peregrinasse a Roma. Calcula-se que, em conseqüência disto, cerca de dois milhões de pessoas peregrinaram a Roma para render homenagens não só ao sepulcro de São Pedro, mas ao papa também.

As receitas financeiras para a Igreja e para os comerciantes superaram todas as expectativas. O santo negócio deveria ser repetido a cada cem anos. Em questões políticas, o papa, porém, não foi tão bem-sucedido.

O rei francês Felipe IV, cognominado de “o Belo” (1285-1324) preparava-se para a guerra contra a Inglaterra. Como lhe faltassem recursos, buscou-os junto ao clero. Seu adversário, Eduardo I (1272-1307), fez o mesmo. Com isso, feriram-se as imunidades do clero. Em 1296, Bonifácio VIII publicou a bula “Clericis laicos”, na qual lembrava que somente o Papa podia exigir ou conceder taxas do e ao clero. Clérigos que entregassem dinheiro sem a autorização papal ou instituições civis que os exigissem seriam castigados com excomunhão e interdito.

Embora se encontrasse em uma tradição que vinha desde os tempos de Gregório VII, Bonifácio esquecera-se de que os tempos eram outros: as nações haviam adquirido consciência própria. Eduardo I ignorou a bula, suspendeu o arcebispo da Cantuária e ameaçou o clero de tirar-lhe os feudos. Bonifácio VIII nada fez em relação a Eduardo I, que vencera os franceses e proibia a saída de divisas do território francês para os estados Pontifícios. Sem dinheiro, Bonifácio teve que ceder. A bula foi declarada sem efeito, sob a alegação de que havia sido mal-entendida. No entanto, não chegou a haver reconciliação entre as partes.

Pouco depois, Felipe mandou prender o bispo de Pamier, Bernardo Saisset, e confiscar os bens do bispado, acusando o bispo de alta traição. Ao tomar conhecimento do acontecido, Bonifácio VIII publicou a bula “Ausculta fili”, na qual admoestava “seu filho Felipe” a se ater às orientações papais. A bula enumerava toda uma série de transgressões cometidas por Felipe. Essas transgressões deveriam ser evitadas, caso contrário o papa poderia, segundo o seu poder, castigar os maus príncipes e seus conselheiros.

Felipe não se intimidou e convocou uma reunião, na qual foram lidos trechos da bula considerados intromissão do papa na soberania real e o clero francês foi proibido de participar de um concílio nacional francês, convocado pelo papa.

Na bula Unam Sanctam, de 1302, Bonifácio deu a entender que preparava excomunhão de Felipe. A bula contém uma interpretação extremada da doutrina das duas espadas, afirmando que ao papa foram concedidas tanto a espada espiritual quanto a espada secular. Felipe mandou aprisionar Bonifácio no palácio de Anagni e levá-lo ás barras do tribunal. O papa conseguiu fugir, vindo a falecer um ano mais tarde. Felipe, porém, não se satisfez com isso. Quando o gascão Clemente V (1305-1314), bispo de Bordeaux, foi eleito papa, Felipe ordenou-lhe que não viajasse para Roma, mas permanecesse na França, passando a residir em Avignon. Desde então, o papado esteve sob o domínio e o controle dos reis franceses até o ano de 1377. Esse período é denominado de “cativeiro babilônico”.

Residindo em Avignon, os papas não renunciaram á pretensão de dirigir toda a cristandade, mesmo que houvesse muitas dificuldades para concretizá-la, especialmente de ordem financeira. Até então os recursos papais vinham de impostos dos Estados Pontifícios, de impostos de cruzadas, de feudos e da concessão de prebendas.

Com a instalação da administração em Avignon, surgiram novos encargos financeiros, para os quais, no entanto, não existiam recursos. Partindo do pressuposto de que o papa tem poder sobre todos os benefícios, passou-se a criar, desde o pontificado de João XXII (1316-1334), todo um conjunto de taxas, que buscou recursos junto ao clero. Assim, exigiram-se comissões quando da concessão de cargos, taxa sobre a renovação da concessão de prebendas temporárias, anatas(Suprimir), entrega das rendas do primeiro meio ano de prebendas de bispos e abades, taxas quando da concessão do pálio a um bispo.

Essa cobrança de taxas foi alvo de severas criticas, especialmente por causa da negociata que se criou em torno dos cargos eclesiásticos. Ridicularizava-se o fato de se encontrar, constantemente, no palácio papal de avignon, sacerdotes ocupados em contar dinheiro. Certo é que essa política não só possibilitou o saneamento das finanças pontifícias, mas também levou ao enriquecimento da Igreja. As riquezas, no entanto, nem sempre foram usadas para fins legítimos, o que provocou o clamor por uma reforma eclesiástica.

A Igreja de Avignon era vulnerável a críticas. Em 1324, foi publicada a obra “Defensor Pacis”, de autoria de Marsílio de Pádua, mestre na Universidade de Paris. Dedicada ao imperador alemão, Luís, o Bávaro (1314-1347), a obra de Marsílio afirma que o papa não tem o direito de ser o único dirigente da Igreja. Igreja é, para Marsílio, tão-somente a comunhão dos crentes. Ao papa, que não foi instalado em sua função por Cristo, cabe apenas função honorífica. Suprema autoridade na Igreja é o concílio. Em conseqüência de suas colocações, Marsílio foi excomungado, refugiando-se junto à corte de Luís, o Bávaro. Na corte do imperador alemão refugiara-se igualmente o franciscano inglês Guilherme de Ockham, cujo ideal de pobreza havia sido condenado como heresia pelo papa João XXII.

O grande cisma
A concepção conciliarista de Marsílio só veio a prosperar quando um cisma sobreveio à instituição papal. De 1378-1415, houve dois e até três papas simultaneamente. De 1415-1417, não houve papa algum. Nessa situação é que se teve que discutir a questão da autoridade papal. Em Roma imperava o caos. O clamor popular levou os papas Urbano V (1362-1370) e Gregório XI (1370-1378) a retornarem a Roma, marcando o fim do “cativeiro Babilônico da igreja”. Foram, porém, incapazes de alterar a situação. O caos reinante provocou o clamor da necessidade de uma reforma “na cabeça e nos membros”. O centro desse clamor foi a Universidade de Paris, liderada pelos professores Jean Chartier e Pierre d’Ailli.

O colégio de cardeais convocou um concílio para a cidade de Pisa, em 1409. A reforma almejada, no entanto, não foi alcançada. O papado esteve representando por Bento XIII, eleito em Avignon, e por Gregório XII, eleito pelo partido romano. O concílio demitiu ambos e elegeu Alexandre V. Como os dois primeiros se negaram a renunciar, houve três papas. Alexandre V também não se mostrou disposto a realizar reformas, postergando-as para um concílio a ser convocado dentro de três anos. O concílio, reunido em Constança, de 1414-1418, foi convocado devido às pressões do imperador Sigismundo (1410-1437), que pretendia por fim ao cisma. Alexandre V falecera um ano após sua eleição. Baltasar Cossa, um ex-pirata, como diziam as más-línguas, veio a ser eleito seu sucessor com o nome de João XXIII (1410-1415). Figura nada recomendável, João XXIII convocou o Concílio de Constança, sem saber que este poderia vir a se voltar contra ele. O concílio depôs os três papas: Bento XIII, Gregório XII e João XXIII, elegendo Martim V.

O concílio de Constança é, ainda, de triste memória por haver ordenado a execução, em fogueira de John Hus. Além disso, não se ocupou com a reforma da Igreja. Também os demais concílios, realizados ao longo do século XV, não conseguiram introduzir a reforma almejada.

A situação da Igreja provocou reações. Uma delas foi buscada na tentativa de retomo à pobreza apostólica. A outra levou a reformas fracassadas.

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