As Perseguições ao Cristianismo Primitivo

A historia da igreja representa um quadro de adaptação contínua e diversa, de avanços e recuos, vitórias e derrotas. Apesar disso, apresenta uma unidade da fé que a torna distinta das outras religiões.
No século 1º, a religião cristã difundiu-se rapidamente em Roma e em todo o mundo, não só pela sua originalidade e universalidade como já vimos anteriormente, mas muito também pelo testemunho de fervor.
Durante os três primeiros séculos de sua existência, no entanto, a igreja cristã sujeitou-se aos surtos de violência e de perseguição das autoridades romanas. No início, a perseguição foi predominantemente local, esporádica e geralmente mais um produto da ação popular do que resultado de uma política definida. Com o passar do tempo, as autoridades civis e o próprio povo, antes indiferentes, demonstraram-se logo hostis à nova religião, porque os cristãos recusavam o culto ao imperador e a adoração às divindades pagãs de Roma. Já o paganismo aceitava as novas formas e objetos de adoração que iam surgindo. Quando os habitantes de uma cidade desejavam desenvolver o comércio ou a imigração, construíam templos aos deuses que se adoravam em outras cidades ou países, a fim de que os habitantes dessas regiões fossem adorá-los. Um exemplo é a estátua da deusa egípcia Ísis nas ruínas de Pompéia, na Itália. O templo foi edificado para fomentar o comércio entre Pompéia e Egito, pois os comerciantes egípcios se sentiriam como em seu próprio país.
A adoração dos ídolos estava entrelaçada com todos os aspectos da vida. As imagens eram encontradas em todos os lares para serem adoradas. Em todas as festividades eram oferecidas libações aos deuses. Os cristãos não participavam dessas formas de adoração. Por essa razão, o povo os considerava como seres insociáveis, ateus que não tinham deuses, e aborrecedores de seus companheiros.
O Cristianismo rejeitava qualquer forma ou objeto de adoração, pois somente admitia adoração ao seu próprio Deus. Os cristãos foram por isso acusados de deslealdade para com a pátria, de ateísmo, de ódio pelo gênero humano, de delitos ocultos, como incesto, infanticídio e canibalismo ritual, além de serem causa das calamidades naturais, como a peste, as inundações, etc.
De uma forma geral, os principais fatores que geraram estas perseguições foram o político, onde havia uma recusa em reconhecer a competência do Estado em questões religiosas e a antipatia popular, através de propaganda anticristã por parte de comunidades judaicas e pagãs.
As perseguições foram dirigidas contra os que professaram uma fé naquele que se dizia o Messias. Um homem que não condizia com os grupos religiosos da época (fariseus, saduceus, doutores da lei, escribas, etc.), e que era visto pelos governadores romanos (que comandavam a região do inicio da expansão da pregação do reino de Deus) como um suposto ‘incitador de multidões’, o que gerava certo pânico.
Além disso, a adoração ao imperador era considerada como prova de lealdade. Os cristãos recusavam-se a prestar tal adoração, mesmo um simples oferecimento de incenso sobre o altar. Pelo fato de cantarem hinos e louvores e adorarem a outro rei, “um tal Jesus”, eram considerados pelo povo como desleais e conspiradores de uma revolução.
Aquele homem, Jesus, tinha realmente algo que atraia multidões, por isso mesmo, após a sua morte os seus verdadeiros seguidores seriam levados aos circos e prisões romanas para entregarem a própria vida por crerem em suas palavras e em seu exemplo de vida.
A primeira geração dos cristãos era tida como relacionada com os judeus, e o Judaísmo era reconhecido pelo governo como religião permitida, apesar de os judeus viverem separados dos costumes idólatras e não comerem alimentos usados nas festas dos ídolos. Essa suposta relação preservou os cristãos por algum tempo da perseguição. Porém, após a destruição de Jerusalém, no ano 70, o Cristianismo ficou isolado, sem nenhuma lei que protegesse seus seguidores.
As reuniões secretas dos cristãos despertaram suspeitas. Eles se reuniam antes do nascer do sol ou à noite, quase sempre em cavernas ou nas catacumbas subterrâneas. Por isso, comentava-se que eles praticavam atos imorais e criminosos. Além disso, o governo do império suspeitava de todos os cultos e sociedades secretas, temendo propósitos desleais. A celebração da Ceia do Senhor, por exemplo, da qual eram excluídos os estranhos, repetidas vezes era causa de acusações e de perseguições.
O Cristianismo considerava todos os homens iguais. Não havia nenhuma distinção entre seus membros, nem em suas reuniões. Um escravo, por exemplo, poderia ser eleito bispo na Igreja. Tudo isso era inaceitável para a nobreza, para os filósofos e para as classes governamentais. Os cristãos eram considerados niveladores da sociedade, portanto anarquistas, perturbadores da ordem social.
Os cristãos, na grande maioria dos casos, enfrentaram com coragem, freqüentemente com heroísmo, a prova das perseguições, mas não a sofreram passivamente. Defenderam-se com força, confrontando tanto a falta de fundamento das acusações que lhes eram dirigidas de delitos ocultos ou públicos, apresentando os conteúdos da própria fé (“Aquilo em que acreditamos”) e descrevendo a própria identidade (“Quem somos”).
É verdade que, segundo as leis romanas, os cristãos incorriam no crime de lesa-majestade e de sacrilégio a partir do momento em que, no seu coração, repudiavam os deuses do Império e, especialmente, fugiam ao culto de Roma e Augusto. Mas, para haver sacrilégio, era necessário que houvesse um ato, e não há notícia de que, nos primeiros séculos, os cristãos atacassem ídolos.
Os cristãos também não fomentavam qualquer desordem. Não havia súditos mais submissos e mais respeitosos à lei: “A César o que é de César”. Então, por que ocorreram as perseguições?
Roma sempre gostou de sangue e de espetáculos sangrentos. Os governantes aproveitavam esse fato para o divertimento da plebe. Havia uma lei segundo a qual se podia trazer qualquer condenado a Roma, a fim de lançá-lo às feras.
O Império, no decurso dos três primeiros séculos, vai avançando no sentido de um fortalecimento dos poderes públicos, de um domínio crescente sobre os espíritos e as pessoas, opondo-se cada vez mais aos não-conformistas. Em contrapartida, os cristãos, pela vida em comum, pelo trabalho dos seus pensadores e pelo exemplo dos seus mártires, se sentiam cada vez mais como antagonistas irredutíveis do Império.
Em última análise, esse complexo de intenção política por parte do poder e de baixa lisonja dirigida aos piores instintos da plebe explica as condições em que se desenrolou a perseguição anticristã.
• Existem documentos sobre este período chamados Atos dos Mártires. São documentos oficiais e os mais antigos da Igreja das perseguições. São textos contemporâneos aos acontecimentos narrados. São as atas dos processos dos Cristãos, chamados “Atos proconsulares” porque, em geral, o magistrado era um procônsul; são as narrações de testemunhas oculares; são as “paixões epistolares”, isto é, cartas circulares sobre os mártires, enviadas por uma Igreja às demais comunidades cristãs; e as “paixões narrativas”, ditadas em parte pelos próprios mártires.
Os Atos dos Mártires são reportados, na maior parte, por Eusébio de Cesaréia (3º-4º século) em “De mortibus persecutorum”; mas também nas Cartas e no tratado “De Lapsis” de São Cipriano (3º século); nas Apologias dos escritores gregos e nos panegíricos pronunciados pelos grandes oradores cristãos do Ocidente, como Ambrósio, Agostinho, Máximo de Turim, Pedro Crisólogo, e do Oriente, como Basílio, Gregório de Nissa e João Crisóstomo.
Os Atos dos Mártires eram lidos no dia de suas festas, durante a celebração eucarística. Com efeito, a memória, a lembrança dos mártires, fundamenta-se no memorial de Cristo, porque a paixão do mártir renova a única paixão do Senhor, da sua morte e ressurreição.
Vale a pena terminar este relato com a morte de Jorge, um dos principais mártires da Inglaterra. Filho de pais cristãos, nasceu na Capadócia e, porque sempre dava prova de sua coragem, foi promovido a oficial do exército de Diocleciano. Durante a perseguição, ele abandonou sua incumbência, dirigiu-se com galhardia ao senado, manifestou abertamente sua condição de cristão, e aproveitou para protestar contra o paganismo e apontar o absurdo de se realizar culto aos ídolos. Tanta ousadia provocou a ira do senado. Logo veio a ordem de tortura para Jorge, o qual, a mando do imperador, foi arrastado pelas ruas e decapitado no dia seguinte.
A legenda do dragão, associada a este martírio, é usualmente ilustrada com a representação do jovem mártir que, montado num cavalo branco, traspassa o monstro com uma lança. Este dragão ardente simboliza o diabo, vencido pela firme fé de Jorge em Cristo, que permaneceu imutável, apesar do tormento da morte.
Aos olhos do governo a igreja parecia uma perigosa arma secreta que crescia assustadoramente. Apesar disso, não houve uma perseguição contínua de Nero a Constantino. O tratamento dado aos cristãos variava de acordo com as atitudes dos imperadores ou dos governos regionais. Houve muitas épocas de trégua em certas regiões ou no império todo. Mas durante todo o tempo o cristianismo esteve fora da lei, e em qualquer ocasião os cristãos podiam ser presos e acusados diante de um magistrado. A recusa de participação no culto oficial significava tortura e, para os obstinados, morte. Nenhum cristão, nesses séculos, pôde viver sem sofrer perseguição, de um modo ou do outro. Desde o inicio da igreja cristã ela tem crescido e sido regada pelo sangue dos mártires.

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