Fatores para o Crescimento do Cristianismo Primitivo

Após os eventos da morte, ressurreição e ascensão de Jesus como narrados nos Evangelhos, e após a morte do último dos apóstolos (em cerca de 100 dc), a Igreja cristã cresceu rapidamente. No grande Império Romano, em 200 dc., havia cerca de 186 milhões de habitantes, dos quais 6,32 milhões eram cristãos (isto equivalia a 3,4% da população!). Em 315 d. C., de 190 milhões de habitantes, cerca de 19,8 milhões eram cristãos (equivalendo a 10,4% da população) O mais espantoso é que a Igreja cristã surgiu num ambiente de pluralismo religioso pagão em meio a ataques de movimentos sincretistas (gnósticos.) e heréticos (marcionismo e montanismo), que colocaram em risco a unidade da Igreja, e em meio a severas perseguições movidas pelo Império Romano (que dominava o mundo na época). E inegável que o crescimento da Igreja é obra da graça e da soberania de Deus! Mas, por que esta nova fé cresceu tão rapidamente? Quais foram os instrumentos que Deus usou?

Fatores Importantes para o Crescimento da Igreja Primitiva

Houve pelo menos quatro meios que Deus usou para levar a Igreja a crescer rapidamente nos primeiros quatro séculos. Foram eles:

a)Os escritos pastorais dos “Pais Apostólicos”

Estes foram uma série de textos escritos por uma geração que sucedeu os apóstolos. Entre estes escritos, podemos mencionar os seguintes: A Primeira Epístola de Clemente de Roma aos Corintios (e. 96), as sete cartas de Incido de Antioquia (e. 112), ás igrejas de Efeso, Magnésia, Trália, Roma, Filadélfia, Esmirna e a seu amigo Policarpo, a Carta de Policarpo de Esmirna à igreja de Filipos (e. 69-155) e a Epístola de Barnabé (c, 100-130). De forma geral, estas cartas são intensamente pastorais, com poucas preocupações teológicas. Seus temas mais comuns são: a necessidade de comunhão e cuidado mútuo entre os cristãos, o cuidado com as facções e heresias e, principalmente, a fidelidade em meio à perseguição. Outro texto famoso, usado no discipulado, é o chamado Didaquê (c. 150), ou Ensino dos Doze Apóstolos. Ele enfatiza a santificação, os dois caminhos (um é o caminho da vida, outro o da morte), instruções para o culto cristão, com menção da prática do batismo (é recomendado o batismo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, por imersão ou aspersão, de acordo com o local), do jejum, da ceia do Senhor e das orações. O Didaquê termina com uma série de exortações sobre como provar se mestres e profetas itinerantes são cristãos verdadeiros.

b)A defesa da fé. “apologistas”

Entre os principais apologetas estavam: Justino de Roma (e. 100-165), fundador duma escola Filosófica cristã em Roma, onde foi martirizado. Ele afirmou fortemente a divindade de Jesus (que dá ao homem a capacidade de aprender a verdade), mas subordinado a Deus, o Pai. Enfatizou também que “toda a verdade vem de Deus” (e ela estaria presente em todas as culturas) e que o cristianismo é a única e verdadeira filosofia. Irineu de Lyon (e. 1130-c. 195), que foi bispo de Lyon, na Gália (178-195) e discípulo de Policarpo de Esmirna. Em seu entendimento, a doutrina cristã verdadeira estaria contida no “depósito apostólico” (que seriam as Escrituras, a tradição apostólica e a sucessão apostólica – os líderes escolhidos e instruídos pelos apóstolos). Irineu de Lyon também enfatizou que o propósito da encarnação de Cristo, segundo Romanos 5.12-21, seria redimir a humanidade por meio da obra de recapitulação e restauração (Jesus é o novo Adão para refazer tudo perfeito onde Adão errou). Tertuliano de Cartago (e. 160-c. 220) foi apologista e teólogo em Cartago, no norte da África (na atual Tunísia). Foi ele quem criou o vocabulário da doutrina da Trindade (Deus seria uma substância e três pessoas) e da fórmula cristológica (Cristo teria duas naturezas – humana e divina – em uma única pessoa). Ele também enfatizou que só aos apóstolos e ás suas igrejas pertencem as Escrituras e a fé cristã, contra a heresia gnóstica. No fim de sua vida, inexplicavelmente, Tertuliano entrou para um grupo herético de legalistas, chamado de montanístas.
Aqui podemos ver três perspectivas diferentes de como o cristianismo se relacionou com a filosofia. Justino usava a filosofia como ferramenta apologética, Irineu de Lyon subordinava a filosofia a uma teologia mais bíblica e Tertuliano, de forma inconsistente, rejeitava o uso da filosofia ao fazer teologia.

e) Os “pais da Igreja”

A expressão pais da Igreja se refere ao escritor, pastor ou teólogo, da antiguidade cristã, considerado pela tradição como testemunho autorizado de fé. Havia três qualificações para alguém ser considerado pai da Igreja: ortodoxia de doutrina, santidade de vida e antiguidade. Os principais foram:
Eusébio de Cesaréia (250-339), que foi bispo de Cesaréia, na Palestina. Ele foi o primeiro historiador da Igreja, e apoiador do imperador Constantino e das mudanças políticas que vieram á Igreja. Outros pais da Igreja que se destacaram, foram: Cipriano de Gartago (c.200-258), autor da famosa frase “não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe”; Ambrósio (339-397), bispo de Milão, na Itália (ele foi um grande teólogo e pregador, tendo forte influência para conversão de Agostinho); João Crisóstomo (344-407), patriarca de Constantinopla (maior pregador da igreja primitiva, lutou muito a favor dos pobres e de uma vida cristã submissa); Jerônimo (348-420), tradutor, escritor e polemista. Sua tradução para o latim tornou-se conhecida como a “Vulgata”, ou seja, escrita na. língua de pessoas comuns (vulgus). Embora não tenha sido imediatamente aceita, ela eventualmente tornou-se o texto oficial do cristianismo ocidental.
Há mais dois pais da Igreja que precisam ser mencionados. O primeiro é Clemente de Alexandria (c. 150-c.215). Ele foi professor na escola catequética de Alexandria, e tem sido considerado o fundador da teologia especulativa. O outro é Orígenes (c. 185-253). Também foi professor nas escolas catequéticas de Alexandria e Cesaréia. Orígenes escreveu a primeira teologia sistemática cristã e dedicou bastante tempo ao estudo do Antigo Testamento, mas foi ele quem introduziu o método alegórico de interpretação bíblica na Igreja. No segundo Concilio de Constantinopla (553), várias de suas doutrinas foram condenadas pela Igreja, entre elas a idéia de preexistência da alma e a restauração final de todos, incluindo Satanás.

d) O Credo das Apóstolos.

A forma integral do que conhecemos hoje como Credo dos Apóstolos teve sua origem em torno dos séculos VI e VII, na Gália. Entretanto, partes dele se acham nos escritos cristãos que datam do século II. O texto final é o que segue:

“Creio em Deus, o Pai onipotente, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Podécio Flatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, no terceiro dia ressuscitou dos mortos, subiu aos céus, está sentado à destra de Deus, o Pai onipotente, donde há de vir para julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, a santa igreja católica cristã, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna. Amém.”

Os pais da Igreja tinham consciência da futilidade de argumentar com os hereges com base somente nas Escrituras, cujo significado eles podiam torcer – e freqüentemente torciam! Então apelavam a “regra de fé”, que tinha sido preservada intacta na Igreja desde os dias dos apóstolos. Não se tratava de subordinar as Escrituras à tradição, mas oferecer uma declaração sucinta a respeito da qual não poderia haver debate algum. O Credo afirma fortemente o caráter trino de Deus, a encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo, sua morte, ressurreição e ascensão, a igreja como criação do Espírito Santo e a ressurreição do corpo e a vida eterna. Suas principais funções eram ser uma confissão de fé para candidatos ao batismo, esboço de um ensino catequético baseado nas principais doutrinas do Credo, como guarda e guia contra as heresias, ao dar continuidade e legitimidade aos ensinos cristãos em sua expansão, e para separar claramente a fé verdadeira de desvios, e como resumo na fé e confirmação no culto.

Nota explicativa: Após a publicação deste texto em nosso blog em 21/07/2011 e no livro de PINHEIRO, Jorge & SANTOS, Marcelo. Manual de História da Igreja e do Pensamento Cristão, 1ª. edição, publicado por Fonte Editorial (2011), p. 65-68, identificamos que não foi inserida a referência do mesmo, o que fazemos agora : “Texto originalmente publicado em FERREIRA, Franklin. A Igreja Cristã: das origens aos dias atuais. Rio de Janeiro: Vida Plena, 1999. p. 7-11. Uma versão revisada e expandida desse texto será publicada em FERREIRA, Franklin. A igreja cristã na história: das origens aos dias atuais. São Paulo: Vida Nova, no prelo”.

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