A Vida Religiosa nos Tempos de Jesus

À unidade política não correspondia uma unidade religiosa, pois Roma não impunha um credo comum. A religião era diversificada (muitos deuses) e o culto unicamente ritual. As cerimônias religiosas compreendiam preces e sacrifícios; estes eram concebidos como presentes e ofertas aos deuses; parte do sacrifício era queimada e o resto consumido pelo clero ou fiéis, ou vendida no mercado.
No âmbito do império existiam os collegia licita, isto é, associações permitidas. Parece que as colônias judaicas gozavam dos direitos dessas associações, e que Roma lhes havia reconhecido alguns privilégios particulares: o direito de recolher as ofertas (didracma) para o templo de Jerusalém, o direito de discutir as causas religiosas diante de tribunais próprios, a isenção do serviço militar e da homenagem religiosa às divindades oficiais do império. Não se tratava de um estatuto especial para os judeus como grupo étnico-religioso, mas representava a aplicação e extensão dos direitos dos súditos nas cidades livres.
Na Antiguidade a sociedade humana estava permanentemente ameaçada de precipitar-se no caos e necessitava ser salva de uma derrocada já em andamento. Quem conduzia os homens de maneira ordenada e procurava assentar as bases para que se instaurasse a felicidade comum na cidade era considerado como um salvador. Os reis, os chefes vitoriosos, os libertadores dos povos e os salvadores das cidades passavam por super-homens. Para que recebessem culto eram necessárias algumas condições políticas. Pelo culto a comunidade reconhecia sua subordinação àquele que honrava e queria comprometê-lo a perpetuar sua proteção.
As cidades gregas e latinas tinham suas divindades próprias. Temendo atrair a cólera de uma divindade, pelo fato de esquece-la, erigiam-se altares aos “deuses desconhecidos”.
O culto do soberano teve origem no oriente: as cidades gregas da Ásia Menor deram aos seus senhores os títulos de soter, epifanus e kyrios. Cada vez mais se impunha a idéia de que deus aparecia visivelmente no soberano. Pouco antes da era cristã começou-se a encarar os imperadores como seres divinos, filhos de deus ou deuses.
As antigas religiões greco-romanas estavam em decadência devido á crítica filosófica e á influência das religiões orientais. Para Evêmero, os deuses seriam personalidades eminentes do passado às quais lentamente se atribuíram honras divinas.
Augusto tentou conter a ruína religiosa e moral de seu povo iniciando uma reconstrução geral da religião oficial (no ano 12 a.C. assumiu a dignidade de pontifex maximux). Implantou o culto oriental do soberano com o intento de pô-lo a serviço da reorganização religiosa; nas casas privadas dever-se-iam oferecer sacrifícios ao imperador. Se nas províncias orientais Augusto incentivou o culto ao imperador na Itália teve de ser mais discreto, pois o senado decidia, após a morte do imperador, a respeito da sua consecratio ou catalogação entre os deuses. No século I, Tibério, Cláudio e Vespasiano estimularam o culto do imperador defunto; Calígula e Nero deixaram-se adorar; e Domiciano exigiu decididamente o culto divino já em vida, reivindicando o título de “Dominus et Deus”.
As manifestações do culto imperial eram relativamente raras: o imperador tinha apenas de deixar que as províncias cidades e corporações exprimissem seu entusiasmo reconhecimento e obséquio; ademais, tinha pouco contato com os camponeses. Para tal culto os sacerdotes eram escolhidos dentre os magistrados locais. A massa apegava-se aos deuses familiares protetores.
Além de preservar seus deuses e crenças, os povos que constituíam o império deviam aceitar a religião romana restaurada por Augusto, ou seja, o culto a Roma, considerada como uma divindade, e ao imperador. Sua recusa constituía uma prova de ateísmo e um ato subversivo, pois significava negar o caráter divino do Estado e recusar a lealdade ao imperador; a única exceção foi feita aos judeus, pois seus ritos e costumes dificultavam as conversões.
No século I, devido ao formalismo, os deuses da cidade e da natureza não despertavam interesse, pois não correspondiam aos anseios religiosos de grande número de pessoas. Por isso as populações do império se interessavam cada vez mais pelas religiões orientais, às quais dava-se muitas vezes o qualificativo de mistérios (mistério: silêncio, doutrina secreta): cultos não-públicos, nos quais se entrava mediante iniciação reservada a um pequeno número).
Os mistérios eram ritos sacros que exigiam longa prepara¬ção. Seu ritual consistia em procissões, música inebriante e cânticos langorosos. Frequentemente eram ritos sazonais desti¬nados a assegurar a fecundidade. Também pretendiam dar aos fiéis a segurança da vida além-túmulo: um deus que permite evadir-se momentaneamente do mundo terreno não poderia abandonar seus fiéis após a morte. O iniciado, no encontro com a divindade, tinha o sentimento de estar salvo, e não podia revelar a ninguém o que tinha experimentado.
Os cultos mistéricos orientais mantiveram sempre o caráter de culto privado. A razão de sua atração consistia em ser uma resposta quanto à vida no outro mundo. Tiveram maior aceita-ção entre os gregos. Três culturas formavam suas fontes: 1) culto egípcio (Isis e Osíris/Serapis); 2) Ásia Menor (Cibele e Átis); 3) Síria (Atárgatis e Adônis).
Os mistérios de Isis tinham mais acolhida popular, especialmente entre as mulheres. Isis era a mulher fiel que tinha partido à procura do esposo Osíris, cortado em pedaços e atirado no Nilo, e conseguira restituir-lhe a vida. Revivia-se esse drama de morte e ressurreição: assim como Osíris morre e ressuscita, o mesmo ocorre com o homem.
Cibele, deusa da fecundidade ou mãe dos deuses, personificava as forças profundas da natureza. Seu culto associava-se ao de Átis, deus da vegetação: este tinha sido pastor e recusado as solicitações de Cibele; ferido de loucura pela deusa, mutilou-se; morreu, mas foi ressuscitado. Os devotos e os sacerdotes (galas) de Cibele reviviam as relações de suas divindades por meio de danças extáticas, acompanhadas de flagelação, e até de mutilação.
Atárgatis, senhora da natureza, e Adônis, seu marido de beleza juvenil, eram figuras divinas. Adônis, um herói da vegetação que, segundo o mito do culto, foi ferido por um javali, morreu e ressuscitou radiante na primavera. No culto, as mulheres se entregavam a um duelo desenfreado e enterravam, entre grandes lamentações, uma imagem do deus; posteriormen¬te proclamavam-no vivo novamente.
Idéias comuns aos três cultos: procura de um deus pessoal que assegurasse felicidade e salvação, morte e ressurreição (esperança escatológica indicada pelo mito) mistério sobre o cerimonial de iniciação (parecia ser um eco do além) cantos e orações.
Os mistérios de Elêusis (séculos VI a.C.-IV) foram os mais célebres da Antiguidade mediterrânea. Celebravam a lenda cantada no Hino a Deméter, atribuído a Homero: Hades, deus dos infernos, arrebatou Coré, filha de Zeus e Deméter, a terra-mãe; Deméter instalou-se em Elêusis e enviou aos homens uma fome terrível; somente quando Coré fosse restituída, ela daria o trigo ao filho do rei que a tinha acolhido; mas Coré devia passar a terça parte do ano debaixo da terra (mito da vegetação: Deméter e Coré velavam sobre os cereais e sobre os mortos). O iniciado revivia a corrida ansiosa de Deméter à procura da filha: uma procissão levava os objetos sagrados de Elêusis a Atenas; os candidatos à iniciação tomavam um banho de mar, e levavam consigo um leitãozinho para o sacrifício; o cesto místico era reconduzido a Elêusis; seguiam-se duas noites de iniciação.
Os mistérios de Mitra, culto originário do Irã, tiveram maior aceitação no Ocidente. Era um culto essencialmente varonil, que teve a maior parte de seus sequazes nas fileiras do exército roma¬no. Mistério central: Mitra, deus da luz, roubou um touro que estava sob o poder da lua e, por mandado de Apolo, matou-o; foi elevado ao céu pelo deus solar Hélios; com a aspersão de sangue de touros sobre os iniciados, estes acreditavam em sua própria elevação ao céu.
Os cultos mistéricos tiveram ressonância sobretudo nas classes médias. Seu caráter esotérico dificultava o acesso a eles.
A religião agrária cultuava as forças misteriosas que asseguravam a fecundidade dos solos e dos rebanhos (divindades prote¬toras das colheitas, dos rebanhos e das fontes).
Na astrologia atribuía-se às estrelas determinados influxos sobre o destino humano (fé num destino fundamentado nas estrelas). Para os estóicos a astrologia era o conhecimento da ordem do mundo na qual a sorte dos mortais estava ligada ao conjunto do cosmo.
A magia era procurada como meio de escapar à necessidade do destino, ou como pretensão de dominar e aproveitar, por meio de práticas misteriosas, o poder das estrelas e as forças boas e más do universo. Os demônios somente podiam ser con¬jurados pela magia: para que a ação e a fórmula mágica fossem eficazes, era preciso saber o nome oculto do deus ou demônio, e empregar da maneira mais exata a fórmula prescrita. Em conexão com a magia apresentava-se a fé no sentido oculto dos sonhos e na sabedoria dos oráculos.
O milagre que mais se desejava era a recuperação da saúde. Asclépio, do século IV a.C., de médico e semideus passou a ser o deus que cura.
Os intelectuais abastados tinham prevenções contra todas as religiões orientais, e qualificavam o judaísmo e o cristianismo de superstições.
Diversas reflexões — estoicismo e epicurismo — propunham artes de viver, como caminhos para o homem chegar à felicidade. Luciano defendeu a idéia de que a filosofia não con¬siste em especulações teóricas, mas num modo de vida.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s